O distanciamento temporal permite a nós médicos falarmos dos nossos erros. O Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro chegou a publicar um livro chamado Erros médicos, com alguns casos pitorescos outros para reflexão. Creio que meu conto/causo tem essas tintas desses dois matizes.
Meu primeiro emprego público foi no Batalhão de Choque da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Um primo de meu pai, Coronel Firmo Ferraz, era Diretor de Saúde da Polícia Militar do RJ. Naquela época nem conhecia a palavra nepotismo, que existe no Brasil até hoje.
Um pediatra atende adulto, mas são raros os clínicos que atendem crianças. Nessa de atender oficiais e soldados daquela Organização Militar, um dia um Sargento entrou no consultório do Departamento de Saúde.
Sentou-se e disse “Doutor acho que estou com problema de impotência sexual.”.
“O que está acontecendo?”
“Antes eu mantinha dez relações por noite, agora só consigo manter cinco.”
Inexperiente, contive o riso. Fiz o exame clínico: normal. Perguntado se fazia todo o treinamento físico militar respondeu que sim.
“Quantos anos o senhor tem?”
“Quarenta e sete.”
“Eu tenho apenas vinte e cinco. Consigo ter três relações por noite sem me cansar, o senhor está melhor do que eu.”
O Sargento que chamarei de Waldir – não posso dizer o nome dele – saiu de cabeça baixa. Pedi que entrasse o próximo militar.
Uma semana depois, Waldir entrou no consultório e partiu para cima daquele médico jovem para esmurrá-lo. Empurrei a mesa, ficamos cada um de um lado. Consegui virar a mesa e Waldir ficou ao fundo do consultório e saí à procura de ajuda.
O Comandante do Batalhão de Choque me chamou e perguntou o que teria dito ao seu subordinado para que tivesse aquela reação violenta.
“Não sei...”
De noite, dormi intranquilo. Comecei a pensar de fato na possibilidade do paciente estar impotente. Diabetes Mellitus causa problemas de ereção. Era da alçada do urologista avaliar o caso, depois que eu pedisse alguns exames de sangue. No dia seguinte, conversei com o Comandante, expliquei que Waldir sentira vergonha de dizer que não estava conseguindo nada, talvez até estivesse com problemas conjugais. A prisão foi relaxada e não constou nos assentamentos da caderneta do militar. Fiz os pedidos de exame de sangue e disse que assim que estivessem prontos marcasse uma consulta com o urologista.
Final alternativo: Não fiz nada disso e só compreendi o que acontecera quando já era tarde para mudar a situação.
Com essa história aprendi que o modo de um paciente se comunicar pode dificultar ao médico saber o que de fato acontece. Paciente nunca fala besteira. Tudo é pertinente.
Este blog é dos irmãos Alberto Daflon,filho e Fabio Daflon. Um livro escrito a quatro mãos que dá nome ao blog. Seguimos a concepção de que uma poesia tem três fontes: o intelecto, o gosto e o senso comum, se o intelecto busca a verdade e o senso comum a moral, o que importa ao poema é o gosto; quanto ao intelecto e ao senso moral esses podem concorrer para o maior valor do poema, mas serão no máximo coadjuvantes relativos. O que há de essência no poema é ser belo.
MAR IGNÓBIL
LIVRO LANÇADO EM 2010
domingo, 30 de outubro de 2011
sábado, 23 de outubro de 2010
O quê?
Canelas belas, sob redondas coxas,
ou pernas ternas para bom caminho,
em passos lassos, violetas roxas
alguém, mas quem? Levará ao ninho
onde ela esconde; mas esconde o quê?
Luz que seduz, sem por a mostra,
rio em mistério onde se abre ostra
d’água na anágua, porque é buquê
nascido e crescido (entre duas coxas),
redondas, redondas para bom caminho,
nos laços dos passos, das violetas roxas
sem ter por que quero com carinho,
com cuidado ao lado levá-la ao estuário
do rio, do rio, onde se abre a ostra
da luz que seduz, ao se por à mostra,
pérola que rola como seixo em rio.
ou pernas ternas para bom caminho,
em passos lassos, violetas roxas
alguém, mas quem? Levará ao ninho
onde ela esconde; mas esconde o quê?
Luz que seduz, sem por a mostra,
rio em mistério onde se abre ostra
d’água na anágua, porque é buquê
nascido e crescido (entre duas coxas),
redondas, redondas para bom caminho,
nos laços dos passos, das violetas roxas
sem ter por que quero com carinho,
com cuidado ao lado levá-la ao estuário
do rio, do rio, onde se abre a ostra
da luz que seduz, ao se por à mostra,
pérola que rola como seixo em rio.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
domingo, 12 de setembro de 2010
Perdido
Desespero cobre a tua espera
Esfera que gira sem andar
No mesmo lugar, mesmos dilemas
Exorcizar demônios que adoçam desencontros
Modificar o ser em sofrimento
No momento é único caminho
E combalidos de tantos desacertos
Estendidos na febre que consome
A vida que unidos percorremos
Buscar espaço entre os espaços
Passo a passo com carinho
Hesitante caminho sem a certeza
Busco o tempo da delicadeza
Que perdido no passado construído
Doído de atitudes mal formadas
Alberto Daflon
Esfera que gira sem andar
No mesmo lugar, mesmos dilemas
Exorcizar demônios que adoçam desencontros
Modificar o ser em sofrimento
No momento é único caminho
E combalidos de tantos desacertos
Estendidos na febre que consome
A vida que unidos percorremos
Buscar espaço entre os espaços
Passo a passo com carinho
Hesitante caminho sem a certeza
Busco o tempo da delicadeza
Que perdido no passado construído
Doído de atitudes mal formadas
Alberto Daflon
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Ventania ou Canto do jovem suicida
Se acaso a ventania me quiser levar;
(me deixe ir
na manhã de inverno, na bruma da noite fria;
(me deixe ir...
meu corpo anda gelado como mar antártico
para ser tragado pela ventania; me deixe ir...
antes que a ventania traga novas caravelas;
( me deixe ir...
em válvulas de escape o navio fez água;
( me deixe ir...
amor! Ah! Não tragas mais as ondas do verão
teus braços na enseada não oferecem porto;
num trago de cigarro virei névoa fria; e os olhares
vis são como os punhais, que quebram todos vidros
das vãs escotilhas e rasgam anteparas de todos
( conveses.
se acaso a ventania me quiser levar, me deixe ir...
mesmo se a primavera revolver o sangue
em buganvílias hemorrágicas sobre os muros dos jardins,
a flor continuará a ser mera ferida.
no mar não há raízes, cabelos, cicatrizes nem as ilhas
que o oceano quis isolar dos homens e do mundo.
se acaso a ventania me quiser levar, me deixe ir
o outono está distante e é uma angra de montanhas
que demora e exige demais para quem deseja partir
agora, sozinho, sem levar ninguém a nenhum
( naufrágio.
se acaso a ventania me quiser levar, me deixe ir
nas quatro latitudes encontrarei jazigo, me deixe ir...
Em tempo: Sidney Mattos ( meu parceiro num samba e irmão-amigo), junto com Augusto Magalhães, falecido nos anos oitenta do século xx de morte natural, um dia fizeram a música que começava com o verso Se acaso a ventania me quiser levar..., letra e música se perderam no esquecimento...
(me deixe ir
na manhã de inverno, na bruma da noite fria;
(me deixe ir...
meu corpo anda gelado como mar antártico
para ser tragado pela ventania; me deixe ir...
antes que a ventania traga novas caravelas;
( me deixe ir...
em válvulas de escape o navio fez água;
( me deixe ir...
amor! Ah! Não tragas mais as ondas do verão
teus braços na enseada não oferecem porto;
num trago de cigarro virei névoa fria; e os olhares
vis são como os punhais, que quebram todos vidros
das vãs escotilhas e rasgam anteparas de todos
( conveses.
se acaso a ventania me quiser levar, me deixe ir...
mesmo se a primavera revolver o sangue
em buganvílias hemorrágicas sobre os muros dos jardins,
a flor continuará a ser mera ferida.
no mar não há raízes, cabelos, cicatrizes nem as ilhas
que o oceano quis isolar dos homens e do mundo.
se acaso a ventania me quiser levar, me deixe ir
o outono está distante e é uma angra de montanhas
que demora e exige demais para quem deseja partir
agora, sozinho, sem levar ninguém a nenhum
( naufrágio.
se acaso a ventania me quiser levar, me deixe ir
nas quatro latitudes encontrarei jazigo, me deixe ir...
Em tempo: Sidney Mattos ( meu parceiro num samba e irmão-amigo), junto com Augusto Magalhães, falecido nos anos oitenta do século xx de morte natural, um dia fizeram a música que começava com o verso Se acaso a ventania me quiser levar..., letra e música se perderam no esquecimento...
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Pé na roça
______________________________________para Cantilde
Vi luz antes de agosto de 1954,
menino com pé na roça,
não fui menino de engenho,
fui um guri suburbano,
crescido no Rocha e na Tijuca;
- mas o avô fazendeiro,
trazia um passado distante
de nascido em 1870, e de
ser representante do velho
pensamento liberal republicano -;
roça e cidade eram meus lugares,
em mim os paralelepípedos
das ruas e as picadas dos matos
eram caminhos que me acompahavam,
como cheiro do curral e o mau
cheiro da merenda da escola;
Cantilde, a negra azeviche de coque,
cozinhava no fogão a lenha
as carnes de porco, gado ou galinha,
e a cocção era lenta como
nunca era rápido o almoço resultante:
as verduras e os legumes
vinham da horta quase à soleira da casa,
do chiqueiro tudo se aproveitava
do porco, e as banhas fritavam ovo.
a couve nas mãos de Cantilde
eram cortadas por micrótomo,
e os fios da verdura lembravam
amontoados de algas verdes,
suaves e tão macias de derreter
na saliva, sem o esforço dos dentes.
Meu avô morreu em 1964,
aos noventa e quatro anos,
quando contavam dois lustros
os tempos dos meus desenganos.
Cantilde também viveu muito,
fez tanto fubá com colher de pau,
tanto biscoito de polvilho,
deu tanta prova a moleque faminto,
que nas refeições a relembro
mexendo angu quentinho na panela,
sobre o qual meu coração se aquece,
alimentando a lembrança do tempo
feliz ao longo do casarão largo
da minha infância e fase pueril,
que passaram e sempre passarão como
continua a passar o longo curso daquele rio,
ao fundo do pomar, onde se erguiam
as palmeiras que viram meu pai crescer,
que eram quatro, hoje são só três,
porque uma caiu antes de um agosto,
mas não quero me lembrar de quando
Cantilde passou a cozinhar nas estrelas.
hoje já contam onze lustros o tempo
dos meus desenganos; sou feliz
porque contemplado por um sossego no peito,
sempre penso no futuro com um
olhar no passado, e se estou desenganado,
no desencanto encontro o canto
real e forte que embala minha lira.
Vi luz antes de agosto de 1954,
menino com pé na roça,
não fui menino de engenho,
fui um guri suburbano,
crescido no Rocha e na Tijuca;
- mas o avô fazendeiro,
trazia um passado distante
de nascido em 1870, e de
ser representante do velho
pensamento liberal republicano -;
roça e cidade eram meus lugares,
em mim os paralelepípedos
das ruas e as picadas dos matos
eram caminhos que me acompahavam,
como cheiro do curral e o mau
cheiro da merenda da escola;
Cantilde, a negra azeviche de coque,
cozinhava no fogão a lenha
as carnes de porco, gado ou galinha,
e a cocção era lenta como
nunca era rápido o almoço resultante:
as verduras e os legumes
vinham da horta quase à soleira da casa,
do chiqueiro tudo se aproveitava
do porco, e as banhas fritavam ovo.
a couve nas mãos de Cantilde
eram cortadas por micrótomo,
e os fios da verdura lembravam
amontoados de algas verdes,
suaves e tão macias de derreter
na saliva, sem o esforço dos dentes.
Meu avô morreu em 1964,
aos noventa e quatro anos,
quando contavam dois lustros
os tempos dos meus desenganos.
Cantilde também viveu muito,
fez tanto fubá com colher de pau,
tanto biscoito de polvilho,
deu tanta prova a moleque faminto,
que nas refeições a relembro
mexendo angu quentinho na panela,
sobre o qual meu coração se aquece,
alimentando a lembrança do tempo
feliz ao longo do casarão largo
da minha infância e fase pueril,
que passaram e sempre passarão como
continua a passar o longo curso daquele rio,
ao fundo do pomar, onde se erguiam
as palmeiras que viram meu pai crescer,
que eram quatro, hoje são só três,
porque uma caiu antes de um agosto,
mas não quero me lembrar de quando
Cantilde passou a cozinhar nas estrelas.
hoje já contam onze lustros o tempo
dos meus desenganos; sou feliz
porque contemplado por um sossego no peito,
sempre penso no futuro com um
olhar no passado, e se estou desenganado,
no desencanto encontro o canto
real e forte que embala minha lira.
sábado, 28 de agosto de 2010
Travessia
ao meu irmão Alberto Daflon,filho
Enchente pós-chuva, na pulsante e ávida enchente;
menino, sim, era menino, e quis a travessia.
O rio sem margens, que comia grama, era o rio
barrento da roça de caminho barrento,
onde queria entrar sem saber para ir onde.
Os pés do primo e do irmão – o rio lambia-lhes os pés –;
meus pés buscavam a margem submersa; em meus pés
passos, com água às canelas, continuavam passos.
Surdo aos gritos, de pare! Pare! Pare! Continuava surdo.
Cobra, o rio me hipnotizava, como à rã hipnotiza a cobra.
Redemoinho, a cobra se contraía no redemoinho.
Submerso, caíra enroscado junto à margem do rio submerso.
Corpo sem reação, decidida cobra me apertava o corpo.
Embora, no fundo, no fundo, o rio quisesse me levar embora,
cobra me queria morto, na fome da sua fome de cobra.
Desenroscado o braço, levantei-o do corpo franzino enroscado.
Pelo punho meu irmão arrancou-me do redemoinho.
Na enchente pós-chuva, na pulsante e ávida enchente.
Menino, sim, era menino; e ainda hoje é cedo para travessia.
Enchente pós-chuva, na pulsante e ávida enchente;
menino, sim, era menino, e quis a travessia.
O rio sem margens, que comia grama, era o rio
barrento da roça de caminho barrento,
onde queria entrar sem saber para ir onde.
Os pés do primo e do irmão – o rio lambia-lhes os pés –;
meus pés buscavam a margem submersa; em meus pés
passos, com água às canelas, continuavam passos.
Surdo aos gritos, de pare! Pare! Pare! Continuava surdo.
Cobra, o rio me hipnotizava, como à rã hipnotiza a cobra.
Redemoinho, a cobra se contraía no redemoinho.
Submerso, caíra enroscado junto à margem do rio submerso.
Corpo sem reação, decidida cobra me apertava o corpo.
Embora, no fundo, no fundo, o rio quisesse me levar embora,
cobra me queria morto, na fome da sua fome de cobra.
Desenroscado o braço, levantei-o do corpo franzino enroscado.
Pelo punho meu irmão arrancou-me do redemoinho.
Na enchente pós-chuva, na pulsante e ávida enchente.
Menino, sim, era menino; e ainda hoje é cedo para travessia.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Complexo de Atlas
Sísifo, ao deixar pedra rolar
para o mesmo ponto abaixo da montanha,
enganava a morte, e ao lar
volvia a recomeçar mesma sanha;
jamais punha a pedra sobre os ombros,
nem mesmo de seu peso reclamava,
para agüentar o mundo e seus desassombros
preferia mão livre para clava;
mas Atlas ao contrário suportava
nas costas todo peso deste mundo,
por ser gigante de uma força extraordinária.
Um dia, descansado, Sísifo lhe disse
que iria deixar pedra rolar
para lado diverso da montanha,
talvez mais belo quem sabe do que o da casa,
mas Atlas implorou não fizesse isso,
pois isso ia causar desequilíbrio
na ordem do planeta sob os seus ombros,
e o mundo cairia, viraria escombros;
mas Sísifo no olhar de Atlas viu engodo,
e súbito a pedra caiu ao outro lado,
para que, sem a sina, enfim o gigante
aceitasse seu mundo como acabado.
Sem mundo o gigante ficou transtornado,
sua ira foi imensa, mas estava só;
Sísifo fora embora mudara de casa,
mas perto estava Prometeu acorrentado;
que ao ver o abutre devorar seu fígado,
não parecia infeliz, nem resignado;
Atlas aproximou-se, ofereceu ajuda,
mas Prometeu não quis ser desacorrentado,
pois ao roubar o fogo tivera o castigo
de o mundo libertar de todo e qualquer jugo,
mesmo de todo seu peso ter sobre os ombros
de um gigante forte, porém muito burro.
para o mesmo ponto abaixo da montanha,
enganava a morte, e ao lar
volvia a recomeçar mesma sanha;
jamais punha a pedra sobre os ombros,
nem mesmo de seu peso reclamava,
para agüentar o mundo e seus desassombros
preferia mão livre para clava;
mas Atlas ao contrário suportava
nas costas todo peso deste mundo,
por ser gigante de uma força extraordinária.
Um dia, descansado, Sísifo lhe disse
que iria deixar pedra rolar
para lado diverso da montanha,
talvez mais belo quem sabe do que o da casa,
mas Atlas implorou não fizesse isso,
pois isso ia causar desequilíbrio
na ordem do planeta sob os seus ombros,
e o mundo cairia, viraria escombros;
mas Sísifo no olhar de Atlas viu engodo,
e súbito a pedra caiu ao outro lado,
para que, sem a sina, enfim o gigante
aceitasse seu mundo como acabado.
Sem mundo o gigante ficou transtornado,
sua ira foi imensa, mas estava só;
Sísifo fora embora mudara de casa,
mas perto estava Prometeu acorrentado;
que ao ver o abutre devorar seu fígado,
não parecia infeliz, nem resignado;
Atlas aproximou-se, ofereceu ajuda,
mas Prometeu não quis ser desacorrentado,
pois ao roubar o fogo tivera o castigo
de o mundo libertar de todo e qualquer jugo,
mesmo de todo seu peso ter sobre os ombros
de um gigante forte, porém muito burro.
domingo, 22 de agosto de 2010
Pára com essa mania!
Cessar mania
é como passar fome
sem emagrecer;
não posso parar
sem beber um uísque
para ter calma,
sou viciado
na droga da mania
mas fujo dela
só para fazer
tudo que faço, penso,
de bom e fértil;
mas essa mania
um dia ainda matará
quem a faz viva;
então cessará
na hora da passagem
mania de ser
maior que ela
a doce mania
que me faz viver.
é como passar fome
sem emagrecer;
não posso parar
sem beber um uísque
para ter calma,
sou viciado
na droga da mania
mas fujo dela
só para fazer
tudo que faço, penso,
de bom e fértil;
mas essa mania
um dia ainda matará
quem a faz viva;
então cessará
na hora da passagem
mania de ser
maior que ela
a doce mania
que me faz viver.
sábado, 21 de agosto de 2010
OÁSIS
todo encantamento
é feitiço recorrente
de alvoradas puras
prólogos de ilusões
do amor inconsútil
posto qual miragem
causada pelas sedes
da dama inconstante
chamada de alegria
restrita a um momento
menor que a hilaridade
do ser feliz completo;
então desencantar-se
é tornar-se um poeta
pobre e sem metáfora
que baterá na porta
mantida entreaberta
somente a noite escura
do encantamento torpe
dos luxuriosos prazeres
que murcham após o gozo
como se fossem rosa
da roseira arrancada
para fugaz surpresa
de quem apaixonada
quer manter-se bem vívida
por estar enamorada
do rito e da passagem
que leva a encantamento
da miragem no oásis.
é feitiço recorrente
de alvoradas puras
prólogos de ilusões
do amor inconsútil
posto qual miragem
causada pelas sedes
da dama inconstante
chamada de alegria
restrita a um momento
menor que a hilaridade
do ser feliz completo;
então desencantar-se
é tornar-se um poeta
pobre e sem metáfora
que baterá na porta
mantida entreaberta
somente a noite escura
do encantamento torpe
dos luxuriosos prazeres
que murcham após o gozo
como se fossem rosa
da roseira arrancada
para fugaz surpresa
de quem apaixonada
quer manter-se bem vívida
por estar enamorada
do rito e da passagem
que leva a encantamento
da miragem no oásis.
MAGMA, o primeiro livro de poesia erótica escrito por uma brasileira: OLGA SAVARY.
Biografo-me em teu corpo despindo os cascos
e as crinas de égua a me tornar doce,
Côncava, amêndoa, combustível para os vôos:
mel para as nossas asas, fel para o repouso.
Olga Savary
Em recente entrevista a revista Marie Claire - nº 233, de agosto de 2010, com Carolina Dieckmann, na capa; Olga Savary declarou que “Quando o poeta fala de erotismo, fala porque não teve na dose que precisava. É mais falta que excesso.”
Poemas eróticos de Olga Savary podem ser lidos em seu site http://www.palavrarte.com/equipe/equipe_osavary_poe1.htm; são poemas ousados, mas nunca descem a mediocridade do sexo explícito e da pornografia tão comuns em 99% dos escritores amadores que, pela falta do erotismo, desfiguram os escritos eróticos como se este pudessem, de per si, satisfazer seus instintos animalescos indignos de serem registrados mesmo nos bestiários da pós-modernidade sôfrega e sem caminho.
Não sei escrever poemas eróticos, mas os de Olga Savary possuem a ourivesaria essencial as obras de arte, tocam a alma e o soma, excitam mais o prazer estético que a libido, não incitam ao onanismo e nem por isso são menos intensos do que qualquer tentativa vã de corromper o erotismo. Não são para serem lidos em alcovas de doentes e nem necessitam de espaço reservado para maiores de dezoito anos, posto que são alta literatura, de feminilidade ímpar e pioneira, por terem sido desde sempre os primeiros a constituírem um livro de poesia erótica no Brasil.
e as crinas de égua a me tornar doce,
Côncava, amêndoa, combustível para os vôos:
mel para as nossas asas, fel para o repouso.
Olga Savary
Em recente entrevista a revista Marie Claire - nº 233, de agosto de 2010, com Carolina Dieckmann, na capa; Olga Savary declarou que “Quando o poeta fala de erotismo, fala porque não teve na dose que precisava. É mais falta que excesso.”
Poemas eróticos de Olga Savary podem ser lidos em seu site http://www.palavrarte.com/equipe/equipe_osavary_poe1.htm; são poemas ousados, mas nunca descem a mediocridade do sexo explícito e da pornografia tão comuns em 99% dos escritores amadores que, pela falta do erotismo, desfiguram os escritos eróticos como se este pudessem, de per si, satisfazer seus instintos animalescos indignos de serem registrados mesmo nos bestiários da pós-modernidade sôfrega e sem caminho.
Não sei escrever poemas eróticos, mas os de Olga Savary possuem a ourivesaria essencial as obras de arte, tocam a alma e o soma, excitam mais o prazer estético que a libido, não incitam ao onanismo e nem por isso são menos intensos do que qualquer tentativa vã de corromper o erotismo. Não são para serem lidos em alcovas de doentes e nem necessitam de espaço reservado para maiores de dezoito anos, posto que são alta literatura, de feminilidade ímpar e pioneira, por terem sido desde sempre os primeiros a constituírem um livro de poesia erótica no Brasil.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
E quando anão cavalgar ornitorrinco
na catraca do estômago bola de pingue-pongue
matará albatroz, inocente onívoro, das ilhas
não mais isoladas pelo oceano
indicado para se jogar o lixo,
oceano Pacífico, Atlântico, Índico,
desarticulados do Ártico,
tentados a desarticular o Antártico,
que nunca terão a densa
pureza do Mar Morto.
catraca, catraca, catraca;
catraca, catraca, catraca.
que catacrese, que nada,
o peixe voador voa para
fugir do mar infectado pelo pus
do abscesso civilizatório.
a bióloga cata esferovites,
metais e peças de plástico
no bucho do albatroz onívoro;
ovíparo alimento das ratazanas,
em paz para comer os albatrozes,
na alva e nos crepúsculos e nas tardes
dos programas televisivos do National Geographic.
Inspiring people to care about the planet since 1888.
matará albatroz, inocente onívoro, das ilhas
não mais isoladas pelo oceano
indicado para se jogar o lixo,
oceano Pacífico, Atlântico, Índico,
desarticulados do Ártico,
tentados a desarticular o Antártico,
que nunca terão a densa
pureza do Mar Morto.
catraca, catraca, catraca;
catraca, catraca, catraca.
que catacrese, que nada,
o peixe voador voa para
fugir do mar infectado pelo pus
do abscesso civilizatório.
a bióloga cata esferovites,
metais e peças de plástico
no bucho do albatroz onívoro;
ovíparo alimento das ratazanas,
em paz para comer os albatrozes,
na alva e nos crepúsculos e nas tardes
dos programas televisivos do National Geographic.
Inspiring people to care about the planet since 1888.
Hotel cinco estrelas
Um dia o playboy surgiu na nossa vida. Não tinha irmãos, mas tinha uma irmã. Éramos dispersos. Mas nos reunimos sob a liderança do alemão para decidirmos o que fazer com o intruso metido a besta que dera um cascudo num colega de classe franzino. Que estória é essa de chegar aqui com essa banca toda?!... Foi mal, agora eu deixo ele me dar um soco na cara. Reunimo-nos em volta e a vítima, hesitante em relação a dar o troco, resvalou um soco na bochecha do intruja. Quero paz e amizade. Está bem. Agora éramos cinco, nós quatro e o metido a besta. Morava no Leblon, viera morar no Rocha, bairro do subúrbio carioca, por causa de problemas financeiros da família. Prazer, Hans, disse o alemão. Sou o Luciano, disse o afro-descendente com sua voz de âncora de jornal de TV. Sou o Domingos, disse o filho do português dono de boteco. Sou o autor desta crônica caros leitores e não disse nada, embora descenda de lusitanos e suíços. Então Luís propôs nos tornamos irmãos. Ok, mano, disse o Hans. Mas você precisa consertar esta calça pescando siri para ir ao Leblon, isso parece mais uma bermuda. Meu pai tem uma confecção, vai por mim, sei o que é moda. Passamos a nos reunir, menos para estudar do que para conviver. O alemão morava no bairro de Santa Tereza e o playboy tinha sua própria turma no Leblon, mas então era um sem teto naquele lugar melhor do mundo. Subimos o morro de bonde, fizemos festas na casa de Seu Hans, pai do nosso amigo, músico violoncelista da Orquestra de Câmara da Sala Cecília Meirelles, criador de guppies, gostava de cruzar os peixes ornamentais, coisas de interesse por genética. Na casa do Seu Hans, vindo para o Brasil no intervalo entre Guerras Mundiais do Século XX havia um tanque com uma pirambóia, único peixe pulmonado do Brasil. Dois pezinhos, um de cada lado do corpo preto de chouriço. Uma boca banguela. Dois olhos oligofrênicos. Balançava o rabo no fundo do tanque e depois o aquietava para o limo cair encima, antes que dobrasse como uma colher para enfiar na boca e alimentar-se. Tinha também um cachorro africano com pele de porco, uns parcos cabelos ocres na cabeça e uma mansidão sem fim. Mas o pai do alemão adoeceu, começou a urinar pedras, a eliminar pedras através da pele. Nosso amigo disse que precisava ir embora de casa porque a barra estava pesada. Mas não tinha dinheiro para pagar a inscrição no Concurso para Sargento Especialista da Aeronáutica. Estávamos então no último ano do ginásio ou primeiro grau, como é dito agora. O playboy sugeriu fazermos uma vaquinha para pagar a inscrição. Fizemos. Vida que segue. Hoje o Hans é Sub-Oficial reformado da Força Aérea Brasileira. Luís conseguiu ir morar no Leblon porque herdou de um tio ex-pracinha um apartamento no bairro que ama. Tenho cinco irmãos, todos no Rio de Janeiro, mas quando vou à urbe da minha natalidade. Fico na casa do meu compadre. De todos mencionados nunca perdi o contato com o playboy, dono de uma vídeolocadora de vasto acervo Cult – em geral assim é chamada a cultura, hodiernamente – além dos filmes comerciais de boa locação. Quando morou em Salvador fui visitá-lo de navio como médico de bordo do Contratorpedeiro Mato Grosso. Morei em Vila Isabel e, regressado ao Rio de Janeiro, o mano tinha a chave de meu apartamento. Frequentava-o para namorar a Lea em tempos de dureza nos dias de minha ausência por motivo de viagens ou plantões. Quando serviu como controlador de voo na Base Aérea de Lagoa Santa, o alemão teve um sítio perto para plantar, conforme declarou, linguiça e macarrão. Como militar foi a única vez que exerceu atividade não remunerada extra-serviço na ativa. O negrão, hoje, é engenheiro e nos reencontrou pela internet. O filho do portuga é engenheiro naval. Ontem mesmo estive na casa do meu compadre playboy para festejar o aniversário de minha afilhada Laura. Aquele lar é o único local onde tenho um hotel cinco estrelas da amizade. Lanche na padaria e, mais importante que tudo, nas calçadas a vida animada da zona sul.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Mar dizível
Se a quilha do navio deixar trilha, o mar é dizível
nas velas desfraldadas em tímpanos dos ventos,
ventanias sibilantes das alvas e crepúsculos ou tempestades,
(mesmo sob a hora perpendicular do sol),
quando os seres abissais refugiam-se em maiores profundezas.
E o espírito goliardesco dos marujos está atento aos riscos,
aos riscos que a quilha do navio abre no mar;
no mar que não quer a demanda do navio ao porto.
O mar que engole com suas línguas todos os segredos;
o mar que aprisiona as sereias em enseadas e pedras;
o mar dissimulado das calmarias e do tédio;
o mar que invade grutas onde há a solidão dos náufragos;
o mar da ilha de Tortuga mergulhada em sangue,
o mar das pilhagens de navios por piratas da Somália,
o mar onde as cicatrizes abertas pela quilha se fecham
na esteira de espuma da popa, onde não há lanternas,
mas há o convés mais largo,
não infenso a solidão dos marujos e ao desespero.
Local que só interessa ao astrolábio pela existência do leme,
quando o horizonte é redondo e não há terra à vista.
Quando no passadiço o timoneiro importa igual ao Comandante
e cada membro da tripulação é uma célula viva da nave de ferro.
De fato, sem o fiel da aguada não há água doce,
e a água do lastro não é potável para ser bebida.
Sem o Contramestre o Oficial não descansa e a maruja
dorme no posto, na hora errada, no mar errante dos naufrágios torpes,
mesmo antes de serem lançadas espias aos cabeços dos portos
para surtar o navio depois do aviso apitado da ramonagem,
que alegra as mulheres das urbes portuárias e as do cais do retorno,
antes que a caldeira se apague e o navio durma um sonho,
no sono dos marujos ratos de bordo e dos que baixam terra,
na hora em que a noite é lançada como tarrafa sobre o oceano.
nas velas desfraldadas em tímpanos dos ventos,
ventanias sibilantes das alvas e crepúsculos ou tempestades,
(mesmo sob a hora perpendicular do sol),
quando os seres abissais refugiam-se em maiores profundezas.
E o espírito goliardesco dos marujos está atento aos riscos,
aos riscos que a quilha do navio abre no mar;
no mar que não quer a demanda do navio ao porto.
O mar que engole com suas línguas todos os segredos;
o mar que aprisiona as sereias em enseadas e pedras;
o mar dissimulado das calmarias e do tédio;
o mar que invade grutas onde há a solidão dos náufragos;
o mar da ilha de Tortuga mergulhada em sangue,
o mar das pilhagens de navios por piratas da Somália,
o mar onde as cicatrizes abertas pela quilha se fecham
na esteira de espuma da popa, onde não há lanternas,
mas há o convés mais largo,
não infenso a solidão dos marujos e ao desespero.
Local que só interessa ao astrolábio pela existência do leme,
quando o horizonte é redondo e não há terra à vista.
Quando no passadiço o timoneiro importa igual ao Comandante
e cada membro da tripulação é uma célula viva da nave de ferro.
De fato, sem o fiel da aguada não há água doce,
e a água do lastro não é potável para ser bebida.
Sem o Contramestre o Oficial não descansa e a maruja
dorme no posto, na hora errada, no mar errante dos naufrágios torpes,
mesmo antes de serem lançadas espias aos cabeços dos portos
para surtar o navio depois do aviso apitado da ramonagem,
que alegra as mulheres das urbes portuárias e as do cais do retorno,
antes que a caldeira se apague e o navio durma um sonho,
no sono dos marujos ratos de bordo e dos que baixam terra,
na hora em que a noite é lançada como tarrafa sobre o oceano.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Endereço certo
Às vezes o abismo ao avesso é visto após a queda
como montanha agreste, com floresta e alimária,
sem picadas ou caminhos que levem a endereço certo,
quem no mundo se pôs ao largo
por ser incapaz de um abraço;
ou ao limite de um muro cercado
com cerca elétrica para evitar o choque
do excesso libertário bebido como dogma
sem que o ser tenha um amálgama;
assim vive no zoológico até mesmo o rei leão
e outros felinos, que desde que haja carne
mostrarão pouco os caninos; exceto
se por preguiça insistirem no rugido;
abençoado é um lar, com janelas
abertas ao sol há alegria na casa,
é doce, doce, a morada; be well come to home;
gostará de estar em casa somente quem for bom homem.
como montanha agreste, com floresta e alimária,
sem picadas ou caminhos que levem a endereço certo,
quem no mundo se pôs ao largo
por ser incapaz de um abraço;
ou ao limite de um muro cercado
com cerca elétrica para evitar o choque
do excesso libertário bebido como dogma
sem que o ser tenha um amálgama;
assim vive no zoológico até mesmo o rei leão
e outros felinos, que desde que haja carne
mostrarão pouco os caninos; exceto
se por preguiça insistirem no rugido;
abençoado é um lar, com janelas
abertas ao sol há alegria na casa,
é doce, doce, a morada; be well come to home;
gostará de estar em casa somente quem for bom homem.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Corpo desuniforme
Teu corpo é alostrófico,
gostaria alabastrino,
quem nasce aqui no trópico
engorda ou fica franzino;
mas não faço engorda imensa
na hora da segunda estrofe,
abaixo do crânio que pensa
cultivo alargado tórax;
mas a barriga afina
em verso hexa-silábico,
os lábios da menina
olho c’os olhos estrábicos.
Sois cabeça tronco e membro, poemeto;
nada sou sem teu sentimento forte;
sempre cumpro as juras que prometo,
a incoerência não ajuda a sorte.
No caminho sinuoso dessa estrada longa,
fui onde o acaso me quis levar de avião;
mas quem acreditar nessa farsa ou milonga
poderá bater com a cara lá no rés-do-chão.
Se o corpo
do poema é esquisito,
um copo é
pré-requisito.
Verás um monossílabo
de cinco sílabas
escandidas pelos lábios
de uma ladra;
ou fada se souber
a mágica do latrocínio
de ao oferecer a úbere
me tornar bem menos cínico;
pois peço sua atenção,
como pedinte a voyer,
que sente algum tesão
ao ler o poema que lê;
claro, apenas para numa fresta
olhar o poema acabado;
em ritmo de grande festa
rock'n'roll, samba e xaxado.
gostaria alabastrino,
quem nasce aqui no trópico
engorda ou fica franzino;
mas não faço engorda imensa
na hora da segunda estrofe,
abaixo do crânio que pensa
cultivo alargado tórax;
mas a barriga afina
em verso hexa-silábico,
os lábios da menina
olho c’os olhos estrábicos.
Sois cabeça tronco e membro, poemeto;
nada sou sem teu sentimento forte;
sempre cumpro as juras que prometo,
a incoerência não ajuda a sorte.
No caminho sinuoso dessa estrada longa,
fui onde o acaso me quis levar de avião;
mas quem acreditar nessa farsa ou milonga
poderá bater com a cara lá no rés-do-chão.
Se o corpo
do poema é esquisito,
um copo é
pré-requisito.
Verás um monossílabo
de cinco sílabas
escandidas pelos lábios
de uma ladra;
ou fada se souber
a mágica do latrocínio
de ao oferecer a úbere
me tornar bem menos cínico;
pois peço sua atenção,
como pedinte a voyer,
que sente algum tesão
ao ler o poema que lê;
claro, apenas para numa fresta
olhar o poema acabado;
em ritmo de grande festa
rock'n'roll, samba e xaxado.
Balada a la bahiana
Salve, salve o tornozelo
que movimenta o pé,
se ele for contundido
não jogo como Pelé,
que se foi um grande craque,
hoje é marca de café.
Cafezinho amargoso
servido após canapé,
ainda bem nunca servido
lá no tempo do rapé.
Como morei na Bahia
ainda canto o afoxé,
um dia quase afoguei
na Lagoa do Abaeté,
e foi um Deus nos acuda
explicar para Maitê,
com ênfase de rima aguda
aonde eu fui me meter
pra chegar molhado em casa
com cara de muito axé!
Mas driblei minha mulher
com carinho e cafuné,
melhor ser homem do mundo
do que ser bicho-de-pé.
Que no solado da esposa
só adormece o blasé,
onde a mariposa voa
sempre há muito o que fazer;
faço amor com a patroa
porque sei andar com fé.
que movimenta o pé,
se ele for contundido
não jogo como Pelé,
que se foi um grande craque,
hoje é marca de café.
Cafezinho amargoso
servido após canapé,
ainda bem nunca servido
lá no tempo do rapé.
Como morei na Bahia
ainda canto o afoxé,
um dia quase afoguei
na Lagoa do Abaeté,
e foi um Deus nos acuda
explicar para Maitê,
com ênfase de rima aguda
aonde eu fui me meter
pra chegar molhado em casa
com cara de muito axé!
Mas driblei minha mulher
com carinho e cafuné,
melhor ser homem do mundo
do que ser bicho-de-pé.
Que no solado da esposa
só adormece o blasé,
onde a mariposa voa
sempre há muito o que fazer;
faço amor com a patroa
porque sei andar com fé.
Adynaton
Tão fora de mim e de si
a ação já consumada
nega revisão de texto;
quem sabe dos não
poemas e da despoesia
são os irmãos Campos.
Pior que adágio musical
incapaz de acontecer
o poema se tornar poema
é o popular tautológico
que nunca diz algo adrede;
então caia sobre a folha
a bomba de mil megatons
na ante-véspera inadiável
de um silêncio absoluto
- para o osso esburgado
de que adianta o gesso?
a ação já consumada
nega revisão de texto;
quem sabe dos não
poemas e da despoesia
são os irmãos Campos.
Pior que adágio musical
incapaz de acontecer
o poema se tornar poema
é o popular tautológico
que nunca diz algo adrede;
então caia sobre a folha
a bomba de mil megatons
na ante-véspera inadiável
de um silêncio absoluto
- para o osso esburgado
de que adianta o gesso?
O sabiá...
Fui pego de surpresa pelo amor,
ainda muito verde de ciúmes,
já sei que cada faca tem dois gumes,
desdenha de mulher traduz clamor.
Então andava triste e cabisbaixo,
tocava meu contrabaixo em langor,
roufenha era a música, sou baixo,
mas era longilíneo meu fragor.
Igor era alto, gordo e bem mais forte,
acreditei em ira em meu vigor,
jurei para contenda luta à morte,
Mas ela não era séria e eu não sabia,
tomei logo um direto bem nos cornos,
restou-me ouvir cantar o sabiá...***
ainda muito verde de ciúmes,
já sei que cada faca tem dois gumes,
desdenha de mulher traduz clamor.
Então andava triste e cabisbaixo,
tocava meu contrabaixo em langor,
roufenha era a música, sou baixo,
mas era longilíneo meu fragor.
Igor era alto, gordo e bem mais forte,
acreditei em ira em meu vigor,
jurei para contenda luta à morte,
Mas ela não era séria e eu não sabia,
tomei logo um direto bem nos cornos,
restou-me ouvir cantar o sabiá...***
Assinar:
Postagens (Atom)